Livro: A Escalada – O Ponto de Vista de Anatoli Boukreev na Tragédia do Everest em 1996

No início do ano li No Ar Rarefeito e fui tomado pela história. Quando fiz o review aqui no blog várias pessoas me falaram de outro livro, A Escalada, que contava a mesma história, sob a visão do montanhista russo Anatoli Boukreev. O relato anterior de Jon Krakauer gerou muita discussão e crítica e esta deve ter sido uma das razões para Boukreev contar o seu lado da história.

Desta vez consegui o The Climb emprestado do meu amigo Vini, do A Montanha, que anotou no seu quadro branco o meu nome. Infelizmente fiquei com o livro mais de dois meses, mas acabei lendo-o em dois dias, no feriado de sete de setembro. Agora vou ter que pagar algumas cervejas para ele quando escalarmos alguma montanha. 🙂

Para quem não leu nenhum dos livros a história segue a trágica investida de duas expedições que fizeram o ataque final ao cume do Everest no dia 10 de maio de 1996, onde vários montanhistas morreram ao serem pegos por uma tempestade na volta do topo do mundo.

Ler duas visões dos mesmos acontecimentos é algo bem interessante, ainda mais quando a história, apesar de trágica, é boa. É mais fácil de entender as motivações de cada um e conhecer melhor a personalidade das pessoas envolvidas.

O livro de Boukreev é mais técnico e o de Krakauer mais abrangente. Krakauer participou da expedição da Adventure Consultants, do montanhista Neozelandês Rob Hall, enquanto que Boukreev era o principal guia da Mountain Madness, do Americano Scott Fischer. Tive a impressão que a visão global de Krakauer era melhor, mostrando a personalidade de cada pessoa da expedição com mais profundidade. Por outro lado os detalhes de Boukreev parecem ser mais acurados.

O lado pessoal da história é melhor contado por Krakauer. Sendo um escritor profissional ele teve anos para aprimorar a sua técnica de escrita. Mas quando se entra nos meandros técnicos da expedição, Boukreev dá detalhes mais convincentes da escalada. Apesar de Krakauer ser também montanhista, a experiência de Boukreev sempre foi muito maior.

No livro No Ar Rarefeito Krakauer mostra Boukreev como um montanhista egoísta e que não se preocupa com os clientes da Mountain Madness, deixando-o à mercê deles próprios. Mas ao se ler o relato de Boukreev se entende que o estilo dele era de desenvolver as habilidades básicas de sobrevivência de cada montanhista; ele queria ensinar a pescar.

Os problemas que culminaram na tragédia do dia 10 de maio foram uma soma de fatores, como quase todos os grandes acidentes dos esportes. No livro de Krakauer o grande vilão foi a tempestade que chegou quando os montanhistas desciam o cume. Boukreev mostra outras facetas, no qual a tempestade é somente a gota d’água no final da história.

Vários fatores, segundo Boukreev, contribuíram para os problemas: a decisão de atacar o cume no dia 10 de maio não foi boa. No dia anterior o tempo estava ruim e a previsão não era das melhores; duas expedições subindo na mesma hora, gerando congestionamento em várias partes da subida, especialmente onde estavam as cordas fixas; a condição física de vários clientes das duas expedições, que não eram excelentes e que chegaram no cume depois do horário ideal, que era por volta das 13:00h.

Como história ainda considero o livro de Krakauer melhor. Ele mostra melhor cada personagem e fala das duas expedições de uma maneira mais abrangente. A Escalada, de Anatoli Boukreev é mais técnico e mais fechado, mas dá uma outra visão da mesma história.

Ambos os livros me preenderam desde a página inicial, prova de que foram muito bem escritos. Vale notar que A Escalada foi escrito em conjunto com Weston DeWalt, a partir de conversas e entrevistas com Boukreev e outros membros da expedição.

Antes que me perguntem eu sugiro que se leia os dois livros, pois são ótimos complementos um do outro. Duas visões para uma mesma aventura trágica, mas cheias de energia e vontade de viver.

Recomendo!!

E você, já leu algum dos livros? Qual a sua opinião?

Comments

  1. CLAUDIO FUZINO says:

    Gostei! Fiquei curioso. hei, precisamos trocar alguns livros. Abço. : )

  2. > Agora vou ter que pagar algumas cervejas para ele
    > quando escalarmos alguma montanha.

    Promessa é dívida, ou melhor, atraso é multa 🙂

    Sobre os livros, ambos são bons, mas o do Krakauer é muito melhor escrito. E o do russo vale, no mínimo, como um outro ponto de vista.

    Aguardando pagamento. Abraços! 😀

  3. Emerson Viana says:

    Bem, acabo de ler o livro de Krakauer pela quinta vez. É um relato impressionante. Agora acabo de encomendar o livro de Boukreev, que foi retratado de forma muito negativa.
    Agora só falta conseguir o documentário feito pela IMAX. Se alguém souber onde posso conseguir me avise.

  4. Paulo D'Assumpção says:

    Acabei de ler o Livro de Krakauer, é muito bom. De arrepiar. Vou correr para conseguir o do Boukreev. Valeu a dica.

  5. CAROL says:

    LI O DE KRAKAUER PRIMEIRO E CORRI PARA O DE ANATOLI, É REALMENTE UMA HISTÓRIA FASCINANTE APESAR DE VERÍDICA E TRISTE. MAS A MEU VER, A TRAGÉDIA ESTAVA SENDO ESCRITA E NENHUM DOS DOIS LÍDERES – FISCHER E HALL – PARECIAM DAR IMPORTÂNCIA AOS PEQUENOS CONTRATEMPOS QUE ESTAVAM MOSTRANDO ISSO. É DIFICIL DIZER POIS NUNCA PASSEI PELA SITUAÇÃO, MAS ACHO QUE, NO FUNDO, ATÉ KRAKAUER NÃO ESTAVA NOTANDO E, ANATOLI PARECIA PREVER, AFINAL, ERA EXPERIENTE.

  6. FELIPY SPIRRO says:

    ACHEI OS DOIS LIVROS MUITO BONS, MAS A VISÃO DO ANATOLI, AO MEU VER, É MAIS CLARO E MAIS CONVENCENTE, O KRAKAUER FALADO MONTANHISTA MAIS EXPERIENTE DA MONTANHA NAQUELE DIA COMO UM SUJEITO QUE NÃO SABIA OQUE ESTAVA FAZENDO, MAS PELO CONTRARIO ELE BUSCOU ALERTAR AS PESSOAS MAS NINGUEM O OUVIU. ELE SABIA OQUE ESTAVA FAZENDO….QUEM FEZ A ACLIMATAÇÃO TÃO BEM FEITA COMO O ANATOLI? NINGUEM. CONHECIMENTO E PRATICA LEVA A PERFEIÇÃO, E O ANATOLI JÁ TINHA ESCALADO TODOS OS MAIORES PICOS DO PLANETA, O KRAKAUER É UM JORNALISTA, A ATENÇÃO DELE É PARA AS PESSOAS E OS DETALHES PESSOAIS, SEU PONTO DE VISTA É O DE ALCANÇAR O PUBLICO, EU ACHO QUE ELE É UM CARA COMERCIAL, ELE MESMO DIZ QUE FICOU CONFUSO VARIAS VEZES NA ESCALADA, AO CONTRARIO O ANATOLI VIVEU A MONTANHA!!! E NA MONTANHA ELE SABIA QUE O PERIGO ESTAVA PERTO, NUMA SITUAÇÃO DESSAS É PRECISO SE CUIDAR, SABER OQUE SE FAZ, NÃO SE PODE CONFIAR EM UM GUIA CEM POR CENTO, É PRECISO SE CONHECER E CONHECER O DESAFIO. COMO O ANATOLI DISSE EM SEU LIVRO, A MONTANHA VIROU COMERCIAL DE UMA FORMA QUE PESSOAS QUE TEM DINHEIRO E NENHUM CONHECIMENTO PAGAM A UM SCOTT FISHER PARA TEREM UMA AVENTURA. É PRECISO CONHECER OS DESAFIOS, É PRECISO ESTAR PREPARADO, É PRECISO SE ACLIMATAR BEM, CONHECER O LOCAL, AS PESSOAS QUE MORRERAM NAS EXPEDIÇÕES EM DESTAQUE SE PERDERAM NA TRILHA DE VOLTA, OU ESTAVAM DESGASTADAS FISICAMENTE, NÃO ESTAVAM PREPARADAS, ATÉ O SCOTT, AO MEU VER SABIA DO FINAL DESSA HISTÓRIA, QUEM AMA A MONTANHA MORRE NA MONTANHA. QUE DEUS TENHA A ALMA DE TODOS QUE SE FORAM NAQUELE DIA. LEIAM OS DOIS LIVROS….É ALUCINANTE!!!!VLW

  7. Antonio Carlos says:

    Li o livro do Krakauer e ainda não o do Anatoli, pelas opiniões reforcei minha percepção de que o Anatoli foi sim omisso com relação aos clientes.

    Se ele certamente era mais experiente, mais capaz, mais ciente e mais apto fisicamente que todos os outros, era sua obrigação cuidar da segurança dos clientes.

    Obviamente a idéia de que um cliente para escalar nesse nível de desafio físico técnico e psicológico deveria ter um mínimo de preparo e experiência é fato, no entanto, Anatoli assumiu conscientemente uma responsabilidade, sabia que tipo de clientes deveria guiar e concordou ao ser contratado e muito bem pago.

    No decorrer dos eventos é que colocou sua filosofia em prática, contrariando ordens e colocando em risco vidas que ele deveria proteger.

    Se realmente acredita em seu discurso deveria ter recusado o trabalho e talvez algum outro guia mais conscencioso o teria feito melhor.

    Ele que ataca a comercialização da montanha comercializou suas próprias crenças ao aceitar um trabalho e uma responsabilidade por dinheiro, que contrariava aquilo em que acredita, se tivesse sido honesto com o Scott em como agiria na montanha certamente não teria sido contratado.

    A justificativa de ensinar a pescar é ridícula, qualquer bom professor jamais arriscaria a vida do aluno, se o desafio não é adequado não ensine, essa opção era dele, não do Scott, esse sim confiou, contratou e não teve o serviço prestado, cometeu outros erros, mas não esse.

  8. Fabiano Mandí says:

    Li os dois livros(na época em que saíram aqui no Brasil)respectivamente. Gostei dos dois. Ambos com narrativas intrigantes. Você fica realmente preso na leitura. Muito difícil essa situação…todos tiveram sua parcela de culpa(todos os guias). Espertos foram alguns clientes que foram conscientes e desistiram, salvando suas próprias vidas. Os guias estavam pressionados à não fracassarem por causa de suas reputações. Quanto mais clientes alcançassem o cume, melhor propaganda. Como foi dito acima, a afobação de subir, condição climática e estratégia mais alguma ou outra coisa resultou na tragédia. Com um tempo bom poderia ser evitado essas mortes ou pelo menos a grande maioria.

  9. Priscila says:

    Antonio Carlos,vc leu,pelo visto apenas uma versão da história, a do americano não de Anatoli, recomendo que leia o outros livros pra saber mais, sem contar q, os clientes que Anatoli estava responsável ninguém faleceu ou perdeu algum membro do corpo, já o do americano morrerão 2 clientes. Acredito que por Krakauer ter vivido bastante tempo na guerra fria, depois de só 6 de ela ter terminado ele ainda não tenha saído completamente dela, por isso falado mal do Anatoli aceitando todas as versões das histórias menos a dele. O russo ganhou um prêmio bastante importante em alpinismo, por ter salvado 3 pessoas sem apoio e ter tentado salvar o Scott. Ele ter vendido sua força de trabalho conhecimento para ganhar um sustento não creio q o faça ser ruim.
    Pessoalmente preferia guias como Anatoli. Acredito que se tivesse mais destes não teria, talvez, tanta gente morrido.