Pedal 110km: Dona Francisca e Rio do Julio

Neste domingo fizemos o pedal de encerramento do ano, promovido pelo pessoal do O2. O convite foi enviado pelo Du, ainda em outubro, no peculiar estilo Odoisiano: [o2] Favor Imprimir e Entregar para Senhora Feudal“.

E o texto era o seguinte:

Eu, _____________________, portador de uma vontade de pedalar, solicito autorização, por meio de emissão de um alvará de funcionamento, para expedicionar no dia 12/12/2010, com licença fullday, com distância variando entre 100km (cem quilômetros) e 120km (centro e vinte quilômetros), e altitude variando entre 950m (novecentos e cinquenta metros) e 10m (dez metros) cujo roteiro está guardado no cofre do o²expedição e será aberto apenas na semana anterior, intitulado “Encerramento do Ano e das Tiras”, recebendo apoio logístico da Mildo’s Tur Mother F# Clandestination Travel Agency Ltda.

O Início

E não é que o pedal teve uma grande adesão? Fomos em 15 pedalantes enfrentar um sol de rachar, uma subida infernal, uma descida para lá de arisca, uma tempestade tropical, muitas risadas, um pelotão socando a bota e até uma queda em câmera lenta cinematográfica, no final.

Tudo começou pelas 06:00h da manhã, quando acordei, esperando o Peterson para me pegar lá em casa. Outros 13 iriam de Van, e se encontraram no Shopping Itália. O último desgarrado viria de Joinville.

Ao todo estavam presentes nesta aventura: Fabrício, Luiz, Pedro, Lyra, Fabio, Renato Pedaleiro, Lulis, Arce, Du,  Mr Heil, Zé, Daniel, Galiano, Peterson e eu.

Eu e o Peterson fomos direto ao Posto Rudnick e deixamos o carro por lá. Saímos pedalando até o início da Dona Francisca, onde encontramos o resto do pessoal. Iniciamos o pedal às 09:12h e pelo sol e calor já tínhamos uma ideia do que iria acontecer pela frente.

A Subida da Dona Francisca

A parte inicial parecia ser a mais dura de todo o trajeto (depois descobri que não era), subindo a Dona Francisca num sol inclemente. Foram uns 15 quilômetros de serra acima com poucas paradas e muito suor. Fizemos um rápido pit stop numa bica/cachoeira onde avistamos uma cobra que disseram ser uma coral. Depois vimos pelo menos mais umas oito cobras pelo caminho, entre vivas e mortas.

A primeira parada oficial foi no mirante da Dona Francisca, onde várias pessoas estavam por lá já tirando fotos. O calor era tanto que o pessoal se protegeu atrás de um monumento, brigando por um pedaço de sombra. 🙂 Aguardamos todos se reunirem e seguimos para a última parte da subida da serra.

A Represa

Depois de uma rápida descida chegamos na entrada do Rio do Julio, uma estrada rural bem bonita e simpática. Mais uns 10 quilômetros e estávamos na represa para descansar e comer alguma coisa. Estávamos com tanto calor que queríamos nos jogar naquela água. O problema é que um enorme alambrado nos separava de nosso objetivo. Fui perguntar para uns homens que estavam fazendo um churrasco ali como conseguiríamos tomar banho na represa. Foi daí que um dos três, um alemão mirradinho e surrado pelo tempo arregalou os olhos e disse com um grande sotaque nazista: “É prrroibida tomar banho na represa”. Depois que fui descobrir que eu havia perguntado para quem não devia. O alemão era o funcionário do local. 🙂

Mesmo assim ele foi simpático com a gente e nos deixou pegar água gelada lá dentro.

Ficamos mais de uma hora esperando o resto do pessoal chegar. Já achávamos que havia acontecido alguma coisa. Depois de muito tempo conseguimos contato com o Du, pelo rádio, e ele nos informou que o Renato teve um problema com a bike e que, por não estar se sentindo bem, iria descer a serra e voltar para a Van. Uma baixa na trupe e seguimos em diante.

Da represa até a próxima parada, uma cachoeira que passava pela estrada, foram outros bons quilômetros de grandes subidas e poucas descidas. A estrada ladeada por hortências me lembrou muito o Circuito Vale Europeu.

A Descida da Serra

Depois de nos reunirmos novamente começamos a descida da serra, agora pela estrada de chão. Foram muitos quilômetros ladeira abaixo, sem parar. Eu estava meio apreensivo pelas pedras soltas e areia no caminho e não conseguia largar tanto a bike nas curvas. Nas retas soltava bem, mas nas curvas segurava. Alguns atirados, como o Daniel, passaram zunindo várias vezes mas no final chegamos todos quase ao mesmo tempo.

Do final da serra até Schroeder foram estradas de chão sem variação altimétrica. O local em que havíamos combinado em nos encontrar não estava aberto e então acabamos num posto de gasolina. Até ali já havíamos rodado 60 quilômetros e estávamos bem cansados. O único problema é que ainda havia 50 para o final. 🙁

Enquanto estávamos no posto uma chuva de verão despencou e sabíamos que dali em diante iríamos nos molhar. Saímos quando a chuva diminuiu e fomos para a última parte do trajeto. Pelo menos agora não teríamos nenhuma grande variação altimétrica pela frente.

O problema agora era o tempo. Já eram quatro da tarde e, com um bom trecho pela frente, só socando a bota para não chegar tarde demais. Nesta hora que o espírito guerreiro de todo mundo renasceu. Começamos a formar pelotões e socamos a bota, pedalando cada vez mais colocados e forte.

O Pelotão

Uma hora vimos que um pelotão descarrou na frente e o Arce me chamou e falou para caçarmos eles. Se não fosse este toque acho que estaríamos até hoje na estrada. Quando ele falou acelerei e ele saiu na cola. Pedalei o mais forte que pude, mas logo o Arce tomou a dianteira. Eu estava cansado mesmo. Conseguimos colocar no pelotão da frente e fomos assim por um bom tempo. Impressionante a velocidade que conseguíamos manter.

Depois de um tempo acabamos formando um segundo pelotão e o pessoal da frente desapareceu. O Fabricio assumiu a liderança do segundo pelotão e assim fomos até o final. Me impressionei também com a força e a resistência do Fabricio. Ele liderou o pelotão a maior parte do tempo, e eu e o Fabio só assumimos a frente por curtos períodos de tempo.

A Queda

Faltando dois quilômetros para chegar ao Rudnick estávamos firmes ainda no pelotão: Fabrício na frente, eu no meio e o Fabio atrás; os três colados um no outro e foi quando aconteceu. O Fabricio passou por uma daquelas saídas, onde a estrada faz um calombo de asfalto, na diagonal do meio-fio. Aquilo já é perigoso no seco, imagina com chuva. Nesta hora eu estava muito perto do Fabricio e quando vi o meu pneu traseiro desgarrou, deslizando no asfalto.

Tudo aconteceu em câmera lenta, com o Fabricio me olhando de frente e o Fabio de trás. Eu com o guidão seguindo a estrada, enquando que o pneu de trás, com toda a bicicleta, deslizava para a direita, cada vez mais. Eu tentei o máximo possível voltar a alinhar a bicicleta, mas não dava. A cada segundo o pneu traseiro deslizava mais e eu ia caindo para trás. A câmera lenta se desfez quando o pedal tocou o chão, fazendo faíscas no asfalto. Deslizei por alguns metros e parei no meio-fio.

Na hora me levantei e vi que havia ralado o cotovelo e sentia a nádega esquerda. O Fabio, que havia presenciado tudo, estava de olhos arregalados e adrenado. Como vi que estava tudo bem levantei a bicicleta e voltamos a pedalar.

Final

Chegamos ao Rudnick logo em seguida, logo atrás do primeiro pelotão. na meia hora seguinte o resto do grupo foi chegando. A primeira coisa que fiz foi ir até a lanchonete e comprar vários picolés e muitos chocolates. Peguei dois e todo o resto do pacote entreguei para o Fabricio, falando que aquele era um presente por todas as calorias que ele havia me ajudado a economizar, liderando o pelotão.

Arrumamos as coisas, trocamos de roupa e voltamos para Curitiba, cansados, mas felizes da vida. Pedal de encerramento do ano melhor que este acho que não poderia existir. 🙂

Valeu galera!!

Resumo: Pedal subindo a Serra da Dona Francisca, em Santa Catarina e descendo a Serra do Rio do Julio, passando pela represa, a cidade de Schroeder e voltando pelas estradas dos arrozais. Saímos às 09:12h e chegamos às 18:12h, totalizando 110km em 9 horas de atividade.

Mais relatos: Luiz, Daniel, Lyra, Fabricio, Renato

Comments

  1. mildão says:

    com certeza perdi um pedal daqueles,, mas, primeiro a obrigação depois diversão,,
    legal as chapas,, 😀

  2. daguvasco says:

    Fantastico esse pedal cara.
    Na descida eu ia rapidão, mas na estrada o gas acabou…
    Felizmente foi bom, pois vim no meu ritmo e pensando o quão foi otimo esse pedal.
    Tudo, a companhia, a paisagem, as risadas.
    Maravilhoso, pra fechar bem o ano.
    Nos falamos
    Aquele
    PS: Vou “roubar” umas fotos suas rs…

  3. Luiz says:

    Oito cobras? Eu só vi a coralzinha… Os pelotões estavam divertidos mesmo!

  4. Renato says:

    É uma falsa coral. A coral verdaeira é bem menor. Mas já assusta!

    Bom pedal, valeu Stulzer.

  5. Júlio Melo says:

    Fala aí Rodrigo.

    Muito bom o relato do pedal, bem como as fotos ilustrativas. Nada como pedalar junto ao verde e a natureza.

    A última vez que eu caí eu levantei e olhei logo para a bike para ver se estava tudo certo, depois eu olhei para o meu corpo e vi que também estava ralado.

    Tem uma frase ligada ao surf que também pode ser ligada ao pedal: “não há nada que um bom dia de pedal não cure”

    Um abraço e até a próxima.

  6. fabio says:

    Eu também estava bem perto de vc, e realmente fiquei muito assustado quando vi vc caindo. Mas sorte a nossa de nao ter acontecido nada de mais grave.

    Abraços Fabio

  7. Xampa says:

    só lugar animal !!!!
    gostei do texto para a senhora feudal.

  8. Peterson says:

    Este pedal valeu cada minuto, mas na próxima vou levar mais comida e treinar pra acompanhar o pelotão, eh,eh…
    Abraço

  9. Valeu pela companhia, e pelo susto também, quando vi você e bike entrando na BR na hora do tombo, congelei.

    Abraços

  10. Peterson says:

    Aí galera, estou aqui com o Prof Rogerio da UFPR (area de animais selvagens) e ele viu a foto da cobra. Esta coral é verdadeira e pode chegar ate um metro. Portanto como diz o ditado: tamanho nao é documento.
    Abraço

  11. Arce [o²] says:

    Fala Stulzer!

    Realmente tivemos que buscar o pelotão no sprint. O Fabricio, Lyra e o Luis estavam puxando tão forte que a gente não estava nem aguentando no vácuo.
    Muitobão o pedal! Abraço a todos!!

  12. du says:

    Valeu Stulzer,
    Uma grande expedição (com sustos, que só fiquei sabendo depois).
    Uma sugestão para quem foi e ficou de coração partido com saudades do pelotão:
    Ano Novo…
    Vida Nova…
    Bike Nova… Uma speed resolveria todos esses problemas afetivos!
    HUahuahua
    abraços

  13. […] Transpirando – Pedal 110km: Dona Francisca e Rio do Julio […]

  14. Fala Rodrigo que pedalada bombástica é essa que vcs fizeram amigo, showww, cara lendo este relato eu viajei no tempo pensando nos meus longões quando faço aqui no Rio em meio toda essa natureza toda…Caracas cobra coral é perigoso uma certa vez estavamos subindo a estada que leva o Cristo, só que fomos pela parte mais alta que é o Sumaré e já estavamos quase acabando o treino faltando mais ou menos 1km para para debaixo de um cachoeira eis que do nada eu olho para baixo e só deu tempo de dar um pulo para o lado e avisar os amigos sobre uma cobra que estava vindo em nossa direção, no início foi o maior susto mas depois rimos pacas…Pera lá vcs nem deram um mergulho na cachoeira??? Viu só reclamaram do calor a chuva veio, mas não é perigoso pedalar com uma chuva dessas…Cara o tombo foi feio mesmo, mas espero que tenha melhorado…
    Bom como são muitos blogs para visitar já estou antecipando lhe desejo a vc e sua família um abençoado Natal e que um Próspero Ano Novo e que em 2011 vc retorne com essa força total.

    Um abraço,

    Jorge Cerqueira
    http://www.jmaratona.com

  15. […] Stulzer: Pedal 110km: Dona Francisca e Rio do Julio […]