O que o Downhill Speed me Ensinou

Continuando com a série “O que … me Ensinou“, agora é a vez do Downhill Speed, esporte que pratiquei por pouco tempo, em torno de nove ou dez meses, de 2004  a 2005. Primeiro é importante clarificar o que é o esporte: basicamente você desce, com um skate longboard, a ladeira mais inclinada que conseguir, na maior velocidade possível. 🙂

Tive o primeiro contato com o esporte num campeonato no Parque São Lourenço, aqui em Curitiba, onde tem uma pista que foi construída, na década de 1980, para carrinhos de rolimã. É uma pista legal, em formato de “S”, ótima para treinar.

O Downhill Speed me lembrou muito o paraquedismo, pela adrenalina e pela necessidade de movimentos precisos durante a execução da descida. Um deslize no paraquedismo e você perde a e estabilidade; um deslize no downhill e você vai para o chão.

Mas o que aprendi com este esporte?

Concentração

O downhill speed ensina a se ter concentração. É impossível descer uma ladeira a 70km/h sem estar concentrado. Comece a pensar em outra coisa e o chão vem rapidinho, sem aviso. Quando você menos espera, está deslizando pelo asfalto. E a concentração é muito do estilo Zen, onde tem-se que parar de pensar e simplesmente executar a ação. Quanto mais pensar, pior.

Precisão

O downhill é um esporte de precisão. Os movimentos são sutis, e lembram muito os executados pelas motocicletas de corrida. Quando se chega em uma curva, todo o corpo tem que trabalhar junto para que ela seja vencida. Se você tentar só mexer os pés, passará reto. A curva tem que ser conquistada milímetro a milímetro, fazendo-se um traçado o mais perfeito possível. É aí que o esporte vira uma dança.

Harmonia

O downhill é um balé em alta velocidade. Enquanto o skate desce a ladeira a velocidades cada vez maiores, o corpo faz movimentos cada vez mais sutis: um grau de inclinação maior e um pé posicionado um pouco mais para o lado fazem toda a diferença.

Nesta hora o que conta é a harmonia entre o skate e o skatista. Movimentos bruscos são sinais de que alguma coisa está errada. Quanto mais sutileza na movimentação do atleta, mais ele conhece. Aqui é aquela hora em que, para o observador, tudo parece fácil. Ledo engado; o atleta é que é muito bom.

Medo

O downhill deixa o medo à flor da pele. É interessante como é possível trabalhar o medo, deixá-lo presente mas, ao mesmo tempo, num nível (quase) controlável. É uma briga interna para ver quem vence. No final das contas não sei se o medo é vencido ou aplacado. Mas ele está sempre presente, seja na velocidade cada vez maior na ladeira ou no meio da próxima curva.

A Relatividade das Coisas

No downhill, assim como no paraquedismo, o vento se torna uma entidade paupável. A medida em que a velocidade aumenta, ele passa de algo desapercebido, para um fluido parecido com a água de uma piscina. É como se uma gosma pegajosa preenchesse o ambiente, e você tem que lidar com isso. Posições de corpo moldam a nossa postura e a simples abertura dos braços os transforma em freios aerodinâmicos.

O vento, que quase não damos importância no dia-a-dia, faz toda a diferença neste momento.

Energia

O downhill, assim como os outros esportes de pura adrenalina (paraquedismo, surf), te enche de energia à medida que a ladeira e a velocidade avançam. É como se aquelas aulas de física, onde a energia potencial vira cinética, literalmente entrassem dentro do seu corpo. Chegar no final de uma descida, a milhão, são e salvo, te dá uma energia tão grande que a alegria e a vontade de subir novamente a ladeira são insuportáveis.

Saber Parar

O downhill também me ensinou a trabalhar melhor a hora de parar, de desistir. Comigo esta hora foi quando aconteceram dois acidentes, com poucos dias de diferença entre eles. Um amigo se quebrou numa colisão com um street luge num final de semana enquanto que,  dias depois, mais três amigos caíram quebrando os braços numa descida mal executada na Cândido Hartmann.

Notei que aquela era a minha hora de parar. Falei com eles que eu não queria ser o próxima e, por isso, estava parando naquele momento. Tive minhas quedas e dedos ralados, mas nada além disso. Resolvi desistir pois via que algo mais grave era inevitável, e o meu tesão pelo esporte começava a se tornar apreensão.

Este foi o meu sinal.

Conclusão

Assim como os outros esportes que já pratiquei, o downhill me trouxe muitas experiências e vários amigos. Tive ótimas madrugadas descendo à toda a velocidade a Nazaré, na companhia do vento cortante e de meus amigos, capacete à capacete, a poucos centímetros de distância.

Comments

  1. Alysson Sole says:

    O downhill me ensinou muita coisa também, tudo foi muito bem explicado por estas palavras do grande Stulzer, continuo me jogando nas ladeiras, o esporte hoje em dia evoluiu absurdamente, novos equipamentos, novas técnicas de ataque a curvas e uma infinidade de opções que a evolução proporciona aos esportes, parabéns pelas coisas que aprendeu e tenta ensinar aos próximos através de frases e parágrafos..

  2. Saladamistadh says:

    Parabens pelo texto Stulzer,O downhil além de nos ajudarmos em ser uma pessoa melhor(mais energica,mais humorada, ajuda vencer medos, conhecer novas pessoas,inclusão social enfim… é um esporte fantastico .
    Só sou contra sua parte de ”saber parar” (desistir),pelo jeito você não levava o esporte a serio, porque quem ama numca desiste e persiste, não importa se amigos se acidentaram….