Fazer Sem Pensar

Existem atividades que fazemos melhor quando não pensamos. É um estado mental em que a melhor performance ocorre quando não tentamos fazer; simplesmente fazemos. Não pense que esta condição ocorre como que por mágica. Ela é fruto de uma série de fatores, tanto mentais como de experiência.

A Experiência

A maioria dos leitores deve ser capaz de dirigir um carro, então vou dar o exemplo inicial baseado no ato de dirigir. Quantas vezes você percorreu um determinado trajeto conhecido e, quando se deu conta, já havia chegado no destino? Quantas vezes levantou de manhã e nem se lembra que escovou os dentes?

Existem muitas coisas que fazemos “no automático”, sem prestar atenção na sua execução. Isso pode ser bom ou ruim, dependendo de como se observa a situação. Ruim no sentido que não prestamos atenção no que fizemos, o que pode levar à distração. Pode ser bom quando aquilo já está tão arraigado que a execução torna-se uma mera extensão do cérebro.

Já notou que, ao escrever um texto que está borbulhando na sua cabeça, seus dedos voam pelo teclado do computador? É como se eles adquirissem vida própria. Você não pensa em teclar; simplesmente pensa no que quer transmitir e os dedos digitam rápido a sua história. Neste caso a mente está concentrada, mas os dedos estão no automático.

In The Zone

Todas estes casos mostram um estado mental particular. Alguns chamam de meditação, outros dizem que se está “na zona” (in the zone, em inglês). O que se tem aqui é uma situação em que, de tanto conhecer uma atividade, a fazemos sem pensar. E é nesta hora em que a melhor performance acontece.

Ok, mas como conseguir chegar a este ponto, onde o corpo entra no automático, executando a atividade de forma rápida e eficaz? Bem, até hoje a resposta é só uma: treino, muito treino!

Não é de uma hora para outra que você conseguirá fazer uma atividade sem pensar. Treine bastante  e irá notar que executará mais e pensará menos. E tem horas que é melhor não pensar! Simplesmente siga seus instintos e faça!

Faça Sem Pensar

No surf, a hora mais crítica é quando se está remando na onda. Naquele momento, em uma questão de segundos, você tem que achar o momento certo para dropar a onda. Um segundo a menos e ela passa. Um segundo a mais e você leva a maior vaca. Depois de muitos pacotes descobri que o melhor a fazer é não fazer nada! Quando chega o momento eu simplesmente subo na prancha, deslizando sobre a onda. Descobri que surfo melhor quando não penso. 🙂

Para quem compra a sua primeira mountain bike, a troca de marchas é um martírio. O que mais acontece é errar a marcha ou escutar aquele barulho horrível da corrente moendo a coroa ou o cassete. Depois de vários pedais, meio que por mágica, o câmbio torna-se mais leve e as marchas entram com facilidade. O que aconteceu? Mudou a bike? Não, foi você que começou a trocar as marchas sem pensar! 🙂

Se você não se identificou com nenhum situação, quer dizer que precisa treinar mais. Se já passou por situação semelhantes, parabéns, está no caminho! Como falei, a melhor maneira de fazer sem pensar é treinar muito. Automaticamente vai chegar uma hora em que as coisas começam a acontecer.

Recite um Mantra

Se por alguma razão você não consegue desvencilhar a mente da atividade que está fazendo, recite um mantra!

– Hã, agora o cara pirou. Mantra?! 🙂

– Calma pequeno gafanhoto, um mantra pode ser qualquer coisa, até mesmo a sua respiração.

O mantra, na sua essência, é a repetição de alguma coisa: normalmente uma palavra. Mas nada o impede de usar outras coisas para distrair a sua mente. Concentrar-se na sua respiração é uma delas. Outros métodos podem ser: acompanhar as estacas de uma cerca, as pedras do chão ou as folhas das árvores. Qualquer coisa serve, contanto que seja repetitivo e você consiga se concentrar nela.

Já utilizei muitas vezes um mantra para vencer uma subida ou para passar por uma fase difícil de uma corrida. Distrair a mente faz o tempo passar mais rápido e também ajuda o corpo a entrar no automático. É como se, naquele momento, as ações fossem executadas por outra pessoa.

Tome Cuidado!

Fazer sem pensar requer prática e experiência. Portanto faça sem pressa e também sem muitas pretensões. Não queira adiantar as coisas pois a prática pode se confundir com a distração. Distraído você não estará “na zona”, o seu cérebro não estará no automático. E a distração é onde os problemas acontecem. É um carro que vira a esquina, uma pedra que aparece no meio do caminho, ou uma entrada que você esqueceu de pegar. Daí para a tragédia é um pulinho.

Portanto não confunda distração com  entrar no automático. O importante é entender o conceito e praticá-lo de vez em quando. Concentre-se na sua respiração, em cada pedalada, ou na gota de suor que está escorrendo pela sua testa. Você notará que o tempo passou mais rápido, e que está muito mais à a frente do que imaginava.

E é nesta hora em que a mágica acontece.

Comments

  1. Rapaz, adoro esses posts zen-esportivos. Parabéns !

  2. Rodolpho says:

    Sádhana, nirvana, iluminação, satori. As grandes religiões e filosofias sempre têm lugar para esta sensação, que não é só para iniciados, mas só para os que se dedicam. Engraçado falar em mantra, às vezes quando eu estava em uma parte especialmente difícil da escalada eu começava a cantar, e meu companheiro reclamava, dizia que parecia que eu estava diminuindo a via a ponto de me distrair; era justamente o contrário, e inconscientemente eu cantava para regular a respiração e pensar em outra coisa, impedindo a mente de pensar naquilo e deixando o corpo fazer sua parte.
    Parabéns pelo post, mais importante do que pode parecer a princípio.

  3. Henrique says:

    O Kurt (do vôo livre) tem uma linha bem legal de pensamento sobre o aprendizado da pessoa. Correndo o risco de você já ter lido sobre, recito a idéia. Ele diz que temos quatro estágios:

    – Incompetência inconsciente, que é quando achamos que conseguimos fazer algo mas, na realidade, não conseguimos.

    – Incompetência consciente, quando descobrimos que somos ruins! rs :- )

    – Competência consciente, quando conseguimos fazer certo mas precisamos pensar para fazê-lo!

    – Competência inconsciente, quando a atividade é exercida pelo sub-consciente e, portanto, não precisamos pensar nela para fazê-la.

    Essa idéia, pra mim, faz muito sentido – pra tudo! Sempre que inicio uma atividade nova eu batalho para levá-la ao último nível, da competência inconsciente. Acho que tem a ver com meu perfeccionismo rs…

    Abraços, Rodrigão!

    Henrique Gusso Netzka
    http://saudeesorte.blogspot.com

  4. Lex Blagus says:

    Excelente e importantíssimo, me fez inclusive lembrar de minha infância. Lembo que quando criança eu conseguia me distrair enquanto fazia uma determinada atividade, e eu adorava um balanço qua havia em casa. Conseguia voar alto, sem pensar em absolutamente nada ou em absolutamente uma única coisa.

    Mais uma interessantíssima técnica para ser praticada !

    parabéns pelo artigo, abraços

  5. Silvia says:

    Adorei o seu artigo, você conseguiu reunir a unidade que deveria ser perfeita: mente, corpo e também a alma.
    Zensacional, parabéns!!
    Bjos

  6. Rodrigo Stulzer says:

    Gustavo,
    Obrigado pelo incentivo!

    Rodolpho,
    Suas palavras finais são perfeitas!

    Grande Henrique,
    Como já te disse, eu considero a “Incompetência Consciente” equivalente ao “chegar ao estágio da dúvida”

    Lex,
    Temos que, cada vez mais, virar crianças. Não sendo possível de corpo, que seja de alma!

    Silvia,
    Muito obrigado, de coração!

  7. xampa says:

    Com a busca por uma passada melhor, tenho me focado muito na técnica, tanto de braços como das pernas.
    Quero atingir o “in the zone” …
    abs.

  8. Monge says:

    “Fazer sem pensar” pode ter suas virtudes, mas há que se ter mais cuidado ao ocidentalizar as frações da sabedoria milenar para não deturpá-las… A essência da “meditação” reside na consciência absoluta, mas mente livre. Perceba também que o poder das energias evocadas por palavras, lembranças e imagens não deve ser subestimado, um mantra *não* pode ser qualquer coisa…

  9. […] remar e entrar numa onda. Mas no momento em que me ponho de pé na prancha, parece que tudo pára. Paro de pensar e deixo o corpo entrar em sintonia com a onda. Neste instante parece que a sua energia flui para o […]

  10. […] Não adiantava tentar acertar os lançamentos. Eu só tinha que lançar e esquecer. Foi só quando parei de pensar é que ele começou a voltar na minha […]

  11. […] espera, está deslizando pelo asfalto. E a concentração é muito do estilo Zen, onde tem-se que parar de pensar e simplesmente executar a ação. Quanto mais pensar, […]