Livro: No Ar Rarefeito – Um Relato da Tragédia no Everest em 1996

Acabei de ler “No Ar Rarefeito“, mais um livro do meu letrado amigo Claudio Fuzino, que sempre me supre com literatura esportiva de qualidade e alto nível. Desta vez foi mais um livro do Jon Krakauer, experiente montanhista e escritor free lancer da revista Outside.

No Ar Rarefeito conta a trágica história da temporada de 1996 de escalada do Everest, onde Jon acabou indo como cliente da empresa Adventure Consultants, do Neozelandês Rob Hall. O objetivo era fazer uma matéria para a revista Outside, mostrando a comercialização do Everest para pessoas que, em condições normais, dificilmente pensariam em escalar uma montanha destas.

Some-se o sonho de escalar o Everest com uma gorda conta bancária e junte isso a uma expedição comercial, guiada por montanhistas profissionais experientes. O resultado? Uma grande chance de se chegar ao cume ou a uma tragédia, em iguais proporções.

Muitos criticaram este livro na época (e continuam criticando), então não quero entrar no mérito das atitudes morais e pensamentos de Krakauer (e de outros escaladores) ao longo da escalada. O que chama a atenção no livro é outra coisa: a obstinação e força de vontade de um grupo de pessoas em atingir um objetivo: o topo do Everest. A atitude quase suicida com que centenas de pessoas se entregam, ano a ano, ao escalar o Everest é muito interessante, e vale um livro enfocado somente neste tema.

O que levou Yasuko Namba, uma alta executiva japonesa de 47 anos,  a tentar chegar na montanha mais alta da Terra, sucumbindo dias depois a 300 metros das barracas do acampamento 4, a 7.900 metros de altitude, ignorando os perigos e a morte iminente? E Beck Weathers, um médico de 49, que quase morreu no mesmo local, levantar depois de o darem como morto e andar até as barracas, perdendo a mão e nariz, necrosados pelo frio da montanha?

O que passa pela cabeças de outros alpinistas, ignorando corpos mortos a poucos dias atrás, tentando subir a mesma montanha que eles agora escalavam? O que difere o sucesso (ou a morte) deles? Somente um dia de tempo ruim na mais alta montanha da Terra?

O homem é engraçado. Seu principal adversário é ele mesmo, não a montanha, que é somente um meio de atingir os seus objetivos. Qual é a glória de subir o Everest se não se fica mais do que cinco minutos em seu topo? A verdadeira vitória vem depois, com o sentimento de dever cumprido, com a foto emoldurada na sala de visitas e com as histórias que a pessoa contará pelo resto da vida. A sorte é que este “resto” seja junto com seus familiares, e não numa depressão a 8.000 metros de altura, com ventos de mais de cem quilômetros por hora, rezando para não morrer de hipotermia.

Quem quiser saber outro ponto de vista da história, terá que ler A Escalada, do russo Anatoli Boukreev, guia da expedição de Scott Fischer, que também sucumbiu na temporada de 1996. Se alguém tem este livro e quiser me emprestar, agradeço muito! 🙂

O livro de Krakauer é fantástico, daqueles que não se quer parar de ler até chegar a última página. Bem estruturado e que prende a atenção do leitor, mesmo sabendo da tragédia desde a primeira página. Os personagens são pessoas comuns, que bem poderiam ser eu ou você, a única diferença é que eles tentaram chegar ao topo do mundo. Alguns conseguiram; outros pagaram com suas vidas.

Comments

  1. Jon Krakauer é o cara que escreveu Into the Wild também, né?

  2. Leandro says:

    Livro muito bom, li ele no ano retrasado 🙂

    Leandro

  3. rbp says:

    Oi Stulzer!

    Não sei se era isso que você queria dizer (é o que dá a entender pela frase), mas o Beck Weathers *não* morreu. O pessoal fazendo as buscas achava que ele tinha morrido (ou que ia morrer logo, inevitavelmente), mas ele sobreviveu, e voltou sozinho, cambaleando, pro acampamento. Dê uma olhada no link da wikipédia 🙂 Tem também um artigo interessante sobre isso em http://www.spectacle.org/1098/krak.html

    BTW, eu tenho o “A Escalada”, e vou estar em Curitiba nesta quinta-feira. Pode ser meio corrido, não vou ter lá muito tempo, mas, se quiser, podemos combinar de nos encontrarmos e eu te empresto 🙂

    Abraço!

  4. rbp says:

    Aliás, o próprio Beck Weathers escreveu um livro a respeito (“Left for Dead”). Taí um que eu gostaria muito de ler 🙂

  5. vanderson says:

    O livro a escalada como citado pelo rbp traz a outra versão do mesmo fato. Algumas linguas citam inclusive o autor do relato, que jon omitiu muitas razões cruciais dessa tragédia, inclusive do contextos em que os verdadeiros montanhistas estavam expostos nessa comercialização da acesso ao cume do Everest. Vale a pena ler.

  6. […] feito da escalada da equipe IMAX para o Everest, em 1996, o mesmo ano da tragédia contada no livro No Ar Rarefeito, de Jon […]

  7. […] em mais uma temporada de escaladas ao Everest. Junte isso a eu ter lido o livro No Ar Rarefeito a poucos dias e pimba, lembrei que tenho um grande amigo que já se aventurou a escalar a maior […]

  8. […] início do ano li No Ar Rarefeito e fui tomado pela história. Quando fiz o review aqui no blog várias pessoas me falaram de outro […]

  9. Paulo Cesar Gomes says:

    Li os dois livros e, Anatoli,que era um monstro, pois escalava sem oxigênio suplementar, foi injusticado por Krakauer. Leiam a escalada para constatar como Fischer teve descuidos. Anatoli morreu tempos depois numa avalanche