Quando um Amigo Escala o Everest

Estamos em mais uma temporada de escaladas ao Everest. Junte isso à leitura do livro No Ar Rarefeito a poucos dias e pimba, lembrei que tenho um grande amigo que já se aventurou a escalar a maior montanha do planeta! Daí para pedir uma entrevista foi rapidinho; afinal, não é todo mundo que tem um amigo que já foi ao Everest!

Lembro, em 2001, de aguardar ansioso os emails do Gil, diretamente do Everest, e acompanhar a sua aventura, torcendo por ele. O Gil eu conheci quando comecei a voar de parapente, em 1996. Um cara muito gente boa, sempre alegre e pronto para qualquer aventura. Forte e arrojado e com muita experiência, este é o Gil Piekarz que conheci e que continua a fazer grandes aventuras por aí!

Transpirando.com: Gil, fale um pouco de você, quantos anos tem, de sua formação nos esportes e o que já praticou.

Gil Piekarz: Estou com 54 anos, beirando os 55. Meu primeiro esporte foi futebol, até os 18 anos mais ou menos. Então descobri que havia montanhas e que eu podia ir até elas. Nunca mais parei e espero nunca parar.

Entre os anos de 1995 e 2001 fiz 14 expedições em Altas Montanhas (Andes e Himalaia) onde o ponto alto foi minha tentativa no Everest, onde cheguei aos 7.900m de altitude. Também interessante foi meu vôo de parapente do cume do Illimani (6.457m) na Bolívia, em 1999, aliando a prática da escalada com vôo livre. Pratico vôo livre (parapente) desde 1995, onde participei de muitas competições (campeonatos paranaense, sul brasileiro e brasileiro) e de diversos circuitos; além de muitos vôos de montanha, principalmente na Serra do Mar – PR.

No vôo livre já fui campeão paranaense, e cartola – fui diretor da antiga Associação Paranaense de Paraglider e presidente da Federação de Vôo livre do Paraná. Também sou instrutor.

Pratiquei caiaque de águas calmas (mar e lagos/represas) um esporte muito legal e que quero voltar a praticar, onde fiz algumas viagens pelas baías paranaenses. Há, me considero ciclista também. Fiz ciclismo de competição (speed – não existia mountain bike naquela época) entre 1976 e 1979. No mais sou geólogo de profissão e tenho uma filha linda de 4 anos, a Branca Lore. É filha sim e não neta, e sou coruja 🙂

Transpirando.com: Como surgiu a vontade e o convite de ir para o Everest?

Gil Piekarz: As montanhas são uma de minhas paixões, como disse anteriormente. A gente vai escalando e os objetivos e programas vão evoluindo. Escalei minha primeira Alta Montanha em 1989 (Aconcágua), dei uma pequena parada e retornei para o Aconcágua em 1995 e então embalei nas escaladas nos Andes, principalmente Bolívia e Peru.

Em 1998 montamos uma equipe de Curitiba para escalar uma montanha de 8.000m (há 14, todas nos Himalaias, sendo o Everest a mais alta com 8.850m). Durante a pesquisa para decidir qual seria escolhida, conheci o David Lim, de Cingapura, pela Internet. Tornamo-nos amigos virtuais e no ano seguinte ele organizou a expedição Everest 2001 – Singapore / Latin America e me perguntou se eu topava, juntamente com mais um boliviano e um argentino. Disse que sim e então comecei a ir atrás de patrocínio aqui no Brasil (eu tinha que entrar com certa quantia). Antes de ir ao Everest fizemos duas expedições para nos conhecer (Aconcágua e Ojos del Salado).

Não consegui patrocínio no Brasil (salvo minhas passagens aéreas para Cingapura gentilmente cedida pela SNAKE) e, 15 dias antes da expedição partir para o Nepal, o David conseguiu, com “ligeira” influência do patrono da expedição o então Presidente de Cingapura, a minha cota de U$30 mil com a empresa Singapore Tecnologies. E assim passei 59 dias acima dos 5,400m nas encostas do Everest. Uma das coisas legais foi ter compartilhado o Campo Base com os americanos da empresa International Mountain Guides, cujo objetivo central era encontrar o corpo do Irvine, companheiro do Mallory, na escalada de 1924 ao Everest. Vejam o livro “Fantasmas do Everest”, onde um dos autores é o Eric Simonsen (era o nosso líder no Campo Base), para saber porque :o)

Transpirando.com: Você foi pelo Tibet, e não pelo Nepal. Sempre li que a escalada pelo Tibet é mais difícil do que pelo Nepal. Você poderia me dizer quais são as diferenças principais?

Gil Piekarz: Bem, não conheço a escalada pelo Nepal. Estive lá apenas até o Campo Base, mas pelas impressões também acho que pelo Tibet é mais duro. O Campo Base pelo Tibet fica a 22 km do início da escalada, enquanto pelo Nepal o Campo Base é no “pé do morro”. Consequentemente há um desgaste maior pelo Tibet. Vejam que esta caminhada é entre 5.400m e 6.500m de altitudes, bem no ar rarefeito. Segundo, e para mim o pior, é o clima no Tibet. Muito seco e muito vento – terrível mesmo. Todos ficaram doentes (inflamação da garganta – bacteriana), alguns não recuperaram e perderam a tentativa de escalada. Pelo Nepal é mais úmido e menos vento – bem mais agradável, ou menos ruim. Terceiro, o segundo escalão, há 8.700m de altitude, é uma parede vertical de rocha e gelo de 30m – bem difícil. Mas neste caso o Nepal também tem suas dificuldade técnicas o que, creio, se igualam.

Transpirando.com: Quanto tempo você ficou, desde a partida do Brasil? Como foi a aclimatação?

Gil Piekarz: Saí do Brasil no dia 28 de março de 2001 e voltei 15 de junho. Primeiro fui a Cingapura de onde partiu a expedição e, também, para participar da solenidade de “largada”. Bem chique por sinal com a presença do Presidente de Cingapura, do Embaixador do Brasil e muitas autoridades locais e discursos. Até dei entrevista coletiva, aquela do tipo eu numa mesinha e um monte de repórteres. De Cingapura, com uma tonelada de bagagem, rumamos para Kathmandu – Nepal. Dali, com um caminhão e algumas toyotas, cruzamos o Himalaia, adentramos o Platô Tibetano até o Campo Base do Everest há 5.400m de altitude, perto do Mosteiro de Rongbuk – o mais alto do mundo. Fiquei 59 dias entre o Campo Base até a altitude que cheguei na escalada. Aclimatação: deve ser lenta e sem atropelos. Chegamos no Campo base e ficamos lá uns 5 dias. Então começamos a ir em direção ao Campo Base Avançado a 6.500m, depois até o Colo Norte a 7.100m (onde dormi 3 noites). Foram 40 dias indo e voltando. No dia 15 de maio partimos para a tentativa de cume. Se desse certo eu ia chegar no cume no dia 22 de maio e poder ajudar o casal Zebullon e Claire, franceses, a decolar de parapente do cume. O que eles fizeram.

Transpirando.com: Me conta como era passar o tempo lá. lembro que você contou sobre ler devagar os livros que tinha levado, etc. Era O Senhor dos Anéis? Fala desta sua experiência e de viver confinado numa barraquinha.

Tem também aquela história de ter que “esquentar” os computadores antes de ligar. Fale dela também. Me manda logo as respostas que daí coloco amanhã de manhã no ar.

Gil Piekarz: Bem, como dá para imaginar, não havia muito programa por lá :o) Era caminhar, escalar, conversar com os amigos….ou ler, ouvir música e dormir. Na realidade devido ao frio e vento passávamos a maior parte do tempo dentro de nossas barracas. Quando estava no Campo Base, acordava de manhã, ia para o café, ficava a maior parte do tempo na barraca refeitório (fora dela era inviável devido ao frio e vento), tomava meu chimarrão. Voltava para minha barraca e fazia minha programação: lia umas 4 a 5 folhas (só isso para economizar) do livro Senhor dos Anéis, em seguida então escutava determinadas músicas, um cochilo e então almoço.

Enrolava o que dava por lá e voltava para a barraca e seguia a rotina pré-estabelecida. As 4 da tarde sempre tinha um lanche com pipoca. Voltava para a barraca e seguia a rotina. A noite a mesma coisa. Esta rotina era quebrada apenas para acessar a internet (duas a três vezes por semana e muito, pouco tempo). Em maio, que o tempo já estava um pouco melhor, deu para tomar uns banhos, visitar algumas expedições (principalmente os de língua espanhola…eu já estava de saco cheio de inglês) e fazer alguns passeios em volta (2 ou 3…e só). Esta rotina que parecia coisa de maluco era interronpida para ir para altitudes maiores, o que dava saudades da rotina de maluco…ou seja: nada é tão ruim que não possa piorar :o)

Em resumo: tem que ter muita paciência e ser um bom companheiro para si mesmo, para aguentar tantos dias sem fazer nada.

Para usar os computadores, a principal fonte de energia era solar, então, todos os, dias o Ting Sern pegava os painéis solares aquecia-os ao sol e só depois de algum tempo iniciávamos o trabalho de reportar. Sempre a tarde quando o sol já tinha aquecido tudo. Mas o TS já começava pela manhã. Parece pouco não é? Mas faça isto com um vento nojento e temperaturas abaixo de -10 para ver.

Transpirando.com: Você acabou não chegando ao cume pois teve que voltar e ajudar o líder da equipe. Como aconteceu esta história? Você ficou chateado em não ter tido a oportunidade de chegar ao cume?

Gil Piekarz: Estávamos escalando entre o Colo Norte (7100m) e o Campo 5 (entre 7600 e 8000). É estranho isto, mas é assim mesmo. Trata-se de uma crista. Nossas barracas eram as últimas, a quase 8000m. Esta parte da escalada é basicamente uma caminhada, bem inclinada em alguns trechos, mas uma caminhada. Deste modo cada um vai no seu ritmo, não havendo a necessidade de estarmos juntos (David, Roz e eu). O Roz e eu chegamos às barracas do Campo 5, de onde partiríamos no dia seguinte para o cume utilizando oxigêncio artificial, com uma parada para descanso no Campo 6 a 8.300m. De repente o Roz me fala: Gil precisamos descer o David está mal (contato entre eles por rádio). O David estava há uns 200 a 300m abaixo e pelas dificuladades na comunicação não sabíamos exatamente o que ele tinha (podia ser edema). Neste momento eu sabia que nossa escalada ao topo do mundo tinha terminado. Tínhamos que descer para ver o que havia acontecido. Já era tarde, umas 17 horas, e ele não podia em hipótese alguma passar a noite ali. Descemos até ele e constatamos que as “baterias” dele tinham esgotado – exaustão extrema. mais uns instantes e chegaram alguns Sherpas de nosso time para ajudar a baixar. Retornamos ao Colo Norte, sabendo que não havia mais energia para subir novamente.

Sempre acreditei que as coisas acontecem como devem acontecer. Em momento algum fraquejamos, fizemos tudo certinho, dei tudo que podia, então era para ser assim. Claro que é um pouco frustrante, mas, obviamente a integridade de um companheiro está muito acima de qualquer cume. Depois, sendo bem honesto, a barra é pesadíssima e nossa mente fica se degladiando, se divide em duas, uma parte quer desistir e outra continuar. É difícil arbitrar esta briga. Aí quando vem um motivo extremo…uffffaaaa!!! deu…Bali lá vou eu (é que combinei com um amigo de Cingapura ir para Bali, já que é pertinho, antes de voltar ao Brasil, hehe). Mas, não é fácil desistir não, por isso morre muita gente por lá.

Transpirando.com: E da escalada, o que mais te impressionou, já sendo um montanhista com experiência?

Gil Piekarz: A persistência e paciência de todos que estavam lá para escalar o Everest. A auto-motivação e o espírito de equipe que deve imperar numa situação destas. Escaladores e Sherpas que não possuem este espírito são excluídos. Vi isto acontecer com um Sherpa de nossa expedição. No mais, o gigantismo do Everest é impressionante. E também a cor do céu quando estava chegando no Campo Base Avançado, de um azul escuro profundo, com o sinal do “jet stream” (ventos fortíssimos de altitude que varrem o cume do Everest) – amedrontador.

Transpirando.com: E a história do cara que decolou do cume do Everest de Parapente? Ele foi o primeiro? Qual foi a sua sensação, como piloto de parapente, vendo ele voar em cima de você?

Gil Piekarz: Então, como disse, foi um casal de duplo – Claire e Zebullon. A Ozone fez um parapente especial (bem leve). Vi tudo do campo base avançado (ABC). Eles pousaram próximo ao ABC e fui ajudar a resgatá-los e ajudá-los a voltar ao acampamento. Estávamos escalando no mesmo ritmo e provavelmente eu ia vê-los decolar. Foi o segundo vôo e primeiro de duplo do Everest. Um outro francês foi o primeiro. Decolou do cume ainda nos anos 80.

Olhe o Parapente no topo da foto!

Transpirando.com: E o povo do Tibet e os Sherpas, como eles encaram todos estes estrangeiros subindo o Everest?

Gil Piekarz: É uma atividade comercial e muito lucrativa. Para os Sherpas é um belo salário e para o Nepal e Tibet (China) há um bom lucro. É uma atividade consolidada, com um comércio e ambiente favorável incríveis.

Transpirando.com: Hoje em dia a escalada ao Everest tornou-se bem comercial. Tirando os quesitos éticos, você acha que uma pessoa “normal”, que faz exercícios regularmente, poderia encarar uma escalada dessas? Quanto tempo de treino você acredita que uma pessoa assim precisaria ter para estar preparado?

Gil Piekarz: Sim, claro. Mas não se deve começar pelo Everest. Deve-se começar pelos Andes em montanhas mais baixas, até para conhecer o ar rarefeito, sentir o ambiente e ver se gosta mesmo. Todos, eu digo todos, sem exceção, nos dias do pega mesmo pensam: “o que estou fazendo aqui?” E muitos desistem pela pressão psicológica. Então aqueles que desejam se aventurar em altas montanhas é bom terem isso bem em mente. Definitivamente qualquer um que corra 10km, na boa, e tenha saúde, está apto a escalar uma alta montanha, até mesmo o Everest (desde que saiba escalar, não é?). O problema é o psicológico e também se, fisiologicamente, o candidato vai se adaptar ao ar rarefeito. Por isso deve-se primeiro ir para montanhas na casa dos 6.000m a 7000m – o que é já é muito.

Transpirando.com: Você tem vontade de voltar ao Everest e tentar novamente a escalada?

Gil Piekarz: Minha vida mudou muito nos últimos anos. Nasceu minha filha e tenho outras prioridades. Inclusive não me imagino ficar 2 meses afastado dela. O Everest é muito caro e é necessário no mínimo 2 meses para escalá-lo. Mas tenho muita vontade de voltar aos Andes (a última foi em 2003 – Sajama na Bolívia), para jornadas mais rápidas. Porém não digo que desta água não beberei….quem sabe.

Transpirando.com: Alguma mensagem final para os leitores do Transpirando.com?

Gil Piekarz: Gosto de uma frase do escritor argentino Jorge Luiz Borges: “A vida é feita de momentos, não percas o agora”. A minha: “Um pé no chão e outro no ar”!

Saúde e paz a todos!

Fotos: Gil Piekarz

Comments

  1. Osmar says:

    Fantástica entrevista!
    depois de ler “no ar rarefeito” tenho muito medo do everest!
    E ai Rodrigo, tem vontade de escalar o Everest?
    abraço

  2. Rodrigo Stulzer says:

    Oi Osmar! Escalar o Everest eu não tenho vontade. É muito tempo, perrengue (e perigo). Mas tenho vontade de fazer um trekking por aquelas bandas. Isso eu tenho!! 🙂

  3. Ruben Wageck says:

    Rodrigo, parabéns pela iniciativa da entrevista com o Gil. A tua abordagem ajudou o Gil a transmitir suas emoçoes e a verdeira aventura que é ir para o cume do Everest.
    Gil, que sempre superou seus desafios, parabéns pela escalada, mesmo não chegando no cume, mas representando muito bem o Brasil lá fora.

    Abraços e ainda temos muita energia para continuar superando nossos desafios. Ruben