Um Relacionamento Quase Eterno

Minha querida,

Comecei a sonhar com você antes mesmo de te conhecer. Engraçado, né? Não sabia como seriam as suas curvas nem se você era  loira ou morena. Não sei o que aconteceu, acho que foi algo que despertou dentro de mim.

Como todo adolescente, não conhecia nada sobre o mundo. Não entendia a sua personalidade nem tinha ideia de como tratar você. Não sabia se gostava de carinho ou de uma mão mais forte tocando em seu corpo. Bem, eu ainda nem te conhecia, lembra?

Comprei algumas revistas para tentar entender melhor como estas coisas funcionavam. Li tudo o que podia e me envergonhei por não ter experiência nenhuma neste tipo de relacionamento. Mas quanto mais aprendia, mais te queria. Acho que você chegou a virar uma obsessão.


Agora eu te queria, não tinha mais volta. Só faltava tomar coragem para te encontrar.

Numa terça de tarde foi quando te vi pela primeira vez. Primeiro te olhei meio de lado, como se não quisesse nada. Depois perdi o medo e puxei papo. Lembra quando peguei pela primeira vez na sua mão? Você não reclamou e foi aí que perdi a vergonha. Te olhei cuidadosamente, sem medo. Cada detalhe, cada pedaço de seu corpo passou em revista. Eu já não tinha pudores.

Sem pensar nas consequências assinei os papéis e te levei para casa. Achei que iríamos nos divertir bastante, mas nada além disso. Eu estava errado: acabei me apaixonando.

Por quatro anos seguidos eu só pensei em você. Sábado pela manhã era o seu dia, além das quartas à noite. Claro, saíamos em outras ocasiões, mas estas eram sagradas.

Lembra da primeira vez que fomos até Morretes juntos? Sim, foram muitas aventuras, uma melhor que a outra. Você sempre ali, me ajudando nos momentos difíceis e sorrindo nas horas felizes.

É, eu sei que chegou uma hora que entramos em crise. Sim, eu concordo: o erro foi meu. Outra paixão apareceu na minha vida e te deixei de lado.

Te esqueci por quase cinco anos.

Saíamos esporadicamente, mas já não era a mesma coisa. Não te dei mais atenção, não te cuidei. Mas você soube esperar; no fundo tinha certeza que eu voltaria.

E um dia, meio que com vergonha, resolvi te convidar para sairmos de novo. Você não falou nada e me acompanhou, silenciosamente. Pensei que seria só uma aventura, algo que depois poderíamos esquecer de novo. Mas não, eu estava errado.

Saímos andando e deixei o vento bater na minha cara.

Eu parecia um menino de novo, lembrando de tudo o que tinha acontecido com a gente. A paixão voltou e não te larguei mais. Na verdade acho que ela só aumentou. Eu fiquei mais velho e o furor da juventude deu lugar para a ponderação da vida adulta. Agora eu sabia o que queria.

Aproveitamos muito e transpiramos juntos, reconhecendo um ao outro.

Passamos um tempo felizes,  com a certeza de que a paixão iria durar para sempre. Mas o tempo tinha cobrado o seu preço.

Sim, eu sei, nós dois envelhecemos.

Você, com aquelas pintas amarelas pelo corpo e um rangido nas articulações; eu não fiquei atrás: sulcos no rosto e um cabelo mais ralo. É, já não éramos adolescentes.

Eu não queria pensar nisso, mas dezesseis anos juntos tinham cobrado o seu preço. Não tinha mais jeito.

Minha querida, o dia chegou.

Não pense nisso como uma separação. Pense como uma nova fase da nossa vida. Não vou mais abusar de você e exigir o que não pode dar.

Não fique triste!

Ainda sairemos juntos, mas de uma outra forma, mais leve e mais solta. Nada mais de estradas esburacadas ou montanhas intermináveis.

Agora vamos passear no parque. Vamos ver o por-do-sol e tomar um sorvete juntos.

Não fique com ciúmes; o tempo que passamos juntos foi muito especial. Nunca esquecerei o apoio que me deu em todos estes anos.

Querida, cada centímetro dos milhares de quilômetros que trilhamos juntos está guardado no meu coração.

Aproveite a sua aposentadoria, relaxe os pés e curta a vida. Você merece!

Comments

  1. Sivuca says:

    adorei seu texto…

    vão-se os anéis… ficam os dedos…

  2. Fran says:

    hahaha. sensacional!!!! sua mulher vai ficar com ciúmes. adorei o texto! parabéns.

    bjo,

  3. […] ← Um Relacionamento Quase Eterno […]

  4. […] histórico/sentimentais. Lá foi o lugar que mais fui quando comecei a pedalar, logo depois que comprei a minha primeira mountain bike. Foi lá também que passei mais de cinco anos de minha vida, voando de parapente: o Morro da Palha […]

  5. Billy says:

    Rodrigo, na primeira palavra do texto eu já sabia de quem falava, e eu me identifiquei com o teu sentimento.
    Eu também tive um amor, aí arrumei uma amante, não satisfeito outra apareceu na minha vida. Hoje elas convivem em harmonia e todas me dão muito prazer.

  6. […] de comprar a minha primeira bike, lembro que corri para a banca e peguei duas ou três revistas. Com as matérias e dicas que li, […]

  7. Rafael says:

    Oi Rodrigo,

    Tenho uma Schwinn Woodlands (1988) que me leva todos os dias até meu trabalho. Estou sentindo na pele a mesma dificuldade em aposentar um quadro já fatigado, mas que ainda tenho tanto apego.

    Abraço!

  8. Lex Blagus says:

    De longe o melhor relato de aventura que eu já li. Sincronia perfeitra entre o texto e as fotos

  9. […] no começo da minha jornada no mountain biking eu fazia muitos treinos sozinho. Lembro de uma época em que eu pedalava 20km por dia, todos os […]

  10. […] os heróis do Tour eu só conhecia melhor o Indurain, que era o maioral no início dos anos 90, quando comecei a andar de bike, e mais atualmente Lance Armstrong, pelas suas incríveis vitórias e por ter vencido um câncer […]