Do Despertar à Maturidade Esportiva

Depois de vários anos fazendo atividades esportivas diferentes, acabei vendo que segui um padrão muito parecido em cada uma delas. Seja no paraquedismo, voo livre, mergulho, carveboard, montanhismo ou mesmo na bicicleta, acabei seguindo o mesmo caminho para descobrir, aprender e praticar estes esportes. Pode ser que isso seja uma questão do meu jeito de ser, pois provavelmente sigo este mesmo padrão também em atividades não esportivas, mesmo assim acho que pode ser útil para alguém que quer começar algo e não tem ideia de que caminho seguir.

Sempre que me interessei por uma atividade esportiva acabei seguindo o padrão abaixo:

  • Despertar da Atenção
  • Interesse
  • Decisão
  • Prática
  • Maturidade

Despertar da Atenção

A primeira coisa que aconteceu nos esportes que pratiquei foi o despertar da minha atenção. Pode ser um esporte que eu já conhecia ou algo totalmente novo, que acabou de ser inventado. Existe uma hora em que me dá um clique e, por alguma razão, aquilo me chama a atenção.

Quando fiz paraquedismo o despertar da atenção foi quando fiz uma escalada no Marumbi e conheci um louco que só falava da brigada paraquedista no RIo de Janeiro. Ela falou tanto sobre aquilo que achei interessante a ideia de saltar de paraquedas. No caso do voo livre eu lembro exatamente da cena: estava no meu quarto e vi um programa de TV mostrando três parapentes descendo uma montanha. A filmagem era bem do alto, e parecia que aquelas pessoas estavam bem pertinho das árvores, descendo graciosamente. Foi como se uma chave houvesse mudado dentro do meu cérebro. A partir daquele momento ele estava atento, mesmo que inconscientemente, a qualquer coisa relacionada ao parapente.

O padrão acaba sendo este mesmo: algo desperta minha atenção e mesmo sem eu procurar saber mais a respeito, passo a captar informações a respeito daquele esporte.

O Interesse

A partir do momento do despertar da atenção precisa acontecer algo ou uma soma de vários fatores para que aquela fagulha se mantenha viva. Quando o interesse cresce, passo a procurar conscientemente mais informações sobre aquele esporte. No mountain biking o despertar da atenção foi o início da venda das primeiras bicicletas do gênero no Brasil, por volta de 1992. A exposição da mídia era grande e o interesse me levou a comprar várias revistas especializadas para entender mais sobre o assunto.

No paraquedismo o interesse veio através do filme Caçadores de Emoções. Depois de ver aquilo fiquei maluco, e a vontade cresceu muito, me incendiando para conhecer mais sobre o tema.

Esta fase se caracteriza pela pesquisa. Antigamente a primeira coisa que eu fazia era comprar revistas especializadas. Hoje fica muito mais fácil fazer a procura inicial na Internet e depois encontrar os canais mais especializados.

A Decisão

Quando chega a fase da decisão é porque eu já estou convencido e quero mesmo fazer aquilo. Pode ser uma questão de tempo, mas que eu vou fazer, isso vou!

Nas Corridas de Aventura a decisão foi o anúncio da prova de Ponta Grossa, em 2006. O despertar foi na época do Eco Challenge, que passava no Discovery Channel, logo quando inventaram o esporte. O interesse veio quando as provas se popularizaram, mas nunca tinha tido a oportunidade de participar de alguma. E quando vi que aquela prova iria acontecer algumas semanas depois, convidei o Ruben e fizemos nossa primeira corrida.

Quando não existe uma data específica, a decisão é uma espécie de transição. Eu já pesquisei tudo o que precisava saber e a decisão acaba virando simplesmente mais uma etapa, fechando o ciclo da descoberta. No paraquedismo e no parapente foi a inscrição para eu fazer o curso; no mountain biking foi a compra da bicicleta.

A decisão é o cruzamento de um portal, onde o desconhecido e a excitação se encontram.

A Prática

A prática é a parte mais importante, pois sem ela não existe atividade esportiva. Somente a prática é que vai fazer você saber se gosta daquilo e se vai continuar praticando o esporte escolhido.

Alguns esportes exigem acompanhamento de instrutores, enquanto que outros não necessitam tanto esta ajuda. Já fiz de tudo: comecei esportes sem ninguém me ensinar nada, pegando as dicas e macetes que aprendi lendo, como no caso do mountain biking, montanhismo e até na corrida. Na maioria das vezes consegui evoluir, tendo como base somente este conhecimento básico. Algumas vezes, como na corrida, acabei me lesionando por achar que sabia alguma coisa (mas não sabia). Este é o perigo dos esportes que são aparentemente simples, mas que escondem complexidades que muitas vezes ignoramos.

Entre o empirismo e a ajuda profissional tem aqueles esportes em que peguei dicas com amigos, além do que já havia lido. O surf e as corridas de aventura fazem parte desta categoria. Nas corridas peguei as dicas iniciais com o Minduim e depois aprendi tudo na prática. No surf peguei dicas com alguns amigos, mas demorei bastante para evoluir.

No outro lado está a ajuda dos instrutores. Aqui se consegue orientação de pessoas com experiência, sendo uma base segura para se avançar. O voo livre e o paraquedismo são exemplos em que, tentar fugir da instrução profissional, pode causar a sua morte. Neste aspecto sou bem conservador e faço tudo o que os instrutores mandarem, tentando aprender ao máximo cada assunto ministrado.

Na corrida ainda sou iniciante, e estou na fase da prática. Gostaria de correr muito mais, mas o joelho insiste em segurar a minha evolução, precisando de cuidados especiais e visitas a médicos que não descobrem porque ele apita. Vou levando, pacientemente e aprendendo aos poucos.

A prática é a essência de cada esporte. Não adianta dizer para seus amigos que você está fazendo o esporte X ou Y, se não têm a prática. Eu levei mais de um ano para me considerar um surfista. Antes eu não me achava no direito de me chamar assim.

Pratique, pratique e pratique mais ainda. Só deste jeito é que você irá passar para a próxima fase.

A Maturidade

É na maturidade que você passa outro portal. Nesta hora o tesão inicial já passou e a prática te ensinou muita coisa. Normalmente você não sabe tudo, mas uma grande bagagem daquele esporte está arraigado nos seus músculos. É nesta hora em que o esporte passa a fazer parte de você ou que ele vai embora.

Voei de parapente por quase seis anos seguidos. Durante todo este tempo os meus finais de semana se resumiam a voar. Eu poderia ter continuado assim até hoje, como muitos amigos que fiz. Num determinado momento resolvi parar. No caso do parapente foram vários fatores: acidentes com amigos próximos e muito trabalho na minha empresa. Estas coisas se juntaram e eu decidi que era melhor seguir em frente e achar outra coisa para fazer.

No paraquedismo foi a frustração. Saltar de paraquedas era uma coisa tão boa e fantástica que no momento que dei o meu primeiro salto, sabia que poderia fazer aquilo para o resto da minha vida. Mas os custos eram muito elevados e, depois de um ano, resolvi parar porque preferia não fazer nada do que saltar quatro ou cinco vezes por mês. Aquilo era muito pouco para a maravilha que era a queda livre.

E o meu melhor exemplo de maturidade é o mountain biking. Eu pedalo a dezoito anos e não vejo motivo algum para parar. É um esporte que me dá muito prazer, fácil de praticar e que sempre me traz felicidades. Tive uma fase inicial muito legal e forte, que durou uns quatro anos. Daí deu uma diminuída por conta do paraquedismo, do parapente, e de outros esportes que apareceram no meu caminho e ganharam a minha paixão. Nunca parei, mas diminuí bastante. Com as Corridas de Aventura a bike voltou a fazer parte da minha vida esportiva. Primeiro devagar, só nas corridas, mas daí ela foi ganhando um espaço cada vez maior. Hoje ela é a base do meu treinamento.

É na maturidade que você olha o esporte com outros olhos.

E no final, o que sobra?

Todos os esportes que pratico, ou que algum dia pratiquei, me ensinaram alguma coisa. Mas o mais importante de tudo foram os momentos mágicos que vivi em cada um deles.

Poucos sabem o que é a sensação de voar por dezenas de quilômetros só com a força das térmicas ou saltar de 4.000 metros de altura, a 200km/h. Pouca gente sabe o que é pedalar mais de 100km em um dia ou andar 50km só pelo prazer do desafio. Poucos entendem por que correr, pedalar e remar, por doze horas seguidas e, no final, ter uns poucos gatos pingados para te receber.

Todo este suor, de alguma maneira, dá sentido à minha vida. Isso não é uma coisa para se entender; é para se sentir.

Comments

  1. Doge says:

    Excelente post !!

  2. Matheus says:

    Muito bom…abraços.

  3. Paulo Massa says:

    Isso é uma tese de mestrado?
    Sensacional!
    Também gosto de muitos esportes, mas nunca tinha pensado tão racionalmente assim no caminho da evolução.
    Abração Rodrigo!

  4. marco aurelio says:

    Faltou a loucura e coragem, kkk.
    Abraços

  5. […] sua matéria Do Despertar à Maturidade Esportiva, que por sinal é muito interessante e posso dizer que eu estou realmente na fase iniciante. Tenho […]

  6. Paulo henrique says:

    oi bom dia!

    Meu nome é Paulo Henrique moro em bh e li sua matéria e vc disse muitas coisas que fiquei muito mais muito grato por saber que existem pessoas como vc, que estão dispostas a ajudar outras.
    Para mim em especial gostaria de deixar registrado aki, que o que eu li nas ultimas linhas do seu comentário mudou em mim a tal chave que vc descreve.
    todo mundo tem problemas mas eu estava sufocado, precisando de uma luz e achei, sou apaixonado por esportes mas so pratiquei mesmo montain bike no momento estou passando pro uma fase ruim ligado ao meu alto estima.
    kra vc disse

    ” todo este suor,de alguma maneira, da sentido a minha vida,e isso não é algo pra se entender, mas pra se sentir”
    Hoje quando acordei liguei a televisão e vi no esporte espetacular uma matéria de esportes radicais e no final da reportagem eu chorei porque me senti tao pequeno perto de tudo que uma pessoa pode realizar durante a vida ,e decidi procurar na internet como vc também disse que hoje é mais fácil, e de primeira vi sua matéria.
    bom entendo que depende muito mais de mim do que qualquer outra coisa, mais desde já agradeço por sua matéria e gostaria que retornasse com uma mensagem dizendo que leu esta mensagem pois pra mim seria de grande incentivo. OBRIGADO!

  7. […] depois de três anos de prática, posso me considerar um bodybuilder. Já falei isso em um outro post, a alguns anos […]